Quarta-feira, Abril 29, 2009

Instantâneo

Certa saudade de mim: não acho minhas palavras entre as alheias. Olho textos, fotos, e me pergunto em que ponto exato eu parei no caminho.

Tento cultivar flores para ter alguma poesia na vida.

No "devagar depressa dos tempos", só mesmo Guimarães Rosa para surpreender de vez em quando.

É tudo tão esparso e fragmentário que eu me sinto mega-pós-moderna (os hifens estão certos?).

Ainda vou tentar organizar minha vida e o tempo louco que me arrebata rumo a sabe Deus o quê.

Sei lá.

Quarta-feira, Março 11, 2009

Mural

A tese, sempre ela, nos últimos meses, semanas, dias. A tese. E, às três da manhã, tenho que citar. Clarice. Sempre.

EM BUSCA DO PRAZER

E tanto sofrimento por estar, às vezes sem nem saber, à cata de prazeres. Não sei como esperar que eles venham sozinhos. E é tão dramático: basta olhar numa boate à meia-luz os outros: a busca do prazer que não vem sozinho e de si mesmo. A busca do prazer me tem sido água ruim: colo a boca e sinto a bica enferrujada, escorrem dois pingos de água morna: é a água seca. Não, antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado.

Domingo, Janeiro 04, 2009

Em 2009

Há algum tempo que já não passo por aqui. No entanto, tem passado o tempo. Os dias, as estações se sucedem - sem ordem lógica, é verdade. É inverno no início do ano, e da janela só vejo uma chuvinha triste e fina, fininha, que me faz pensar em White Christmas. É janeiro e meus olhos se esforçam para ver além da chuva.

Não sei se cheguei a fazer alguma resolução de ano novo. Acho que, talvez, nunca tenha feito alguma. Ou, se fiz, jamais deu certo. Ainda não decidi se acredito ou não que, na transição momentânea de um ano para o outro, as coisas realmente mudam. Mudo eu?

Sei, sim, que mudaram as regras da boa escrita - estou obsoleta. Percebo que precisaria voltar ao texto, revisar e ver se não coloquei aqui nenhuma palavra - que essa, sim, transformou-se na mudança de um ano para o outro - incorretamente.

Não. Coloco isso na lista enevoada de minhas resoluções de ano novo. Um dia, quem sabe, volto ao texto, e corrijo, retiro os pingos dos us. Sabe Deus se isso vai acontecer um dia.

Segunda-feira, Novembro 10, 2008

Do mural à tese sem que eu tenha percebido

Procurei, mas não encontrei. É de Roteiro do silêncio, Hilda Hilst, em 1959. O trecho eu peguei em um artigo no volume a ela dedicado dos Cadernos de literatura brasileira.

Não há silêncio bastante
para o meu silêncio
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
(...)
O não dizer é o que inflama.
E a boca sem movimento
É o que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama

**********

Ando lendo um pouco mais Hilda Hilst, e descubro da poesia mais densa e legítima. Às vezes encontro daquelas coisas que gostaria de ter escrito (gostar não é, evidentemente, ter possibilidade de). Mas leio, e quem sabe não sai alguma coisa disso tudo.

Até porque o contexto era outro. Entrando um pouquinho na aula, o trechinho do poema é bem representativo dessa época complicada por que passou o mundo:

Seguindo os rastros dessa caminhada, destacamos, em sua poesia primeira, a presença do "silêncio" que se impunha aos poetas nos anos 50 (período da Guerra Fria, quando parecia que já não havia mais nada a dizer ou que nada mais importava). O que não significa que se calaram. Na verdade, de mil modos, falaram sobre o não-falar ou sobre a inutilidade da fala.

Isso está no volume dos Cadernos. A autora é Nelly Novaes Coelho - escapo do plágio, mas não vou ser chata a ponto de colocar referência bibliográfica (lembrar-me de escrever a tese em outra hora e em outro lugar).

A propósito, a tese nada tem a ver com Hilda Hilst. Pelo menos, não que eu saiba. Essas coisas têm suas esquisitices, e às vezes nos levam aonde não planejamos ir.

E, já que inspiração não vem, escrevo qualquer coisa de um livro que comecei a ler hoje. Aí vai um trechinho interessante:

(...) é um pacto de mão dupla: o escritor se faz ouvir e o leitor lhe dá ouvidos - ou, mais precisamente, o escritor trabalha para criar ou encontrar uma voz que irá alcançar o leitor, fazendo-o apurar ouvidos e prestar atenção.

É de A voz do escritor, de A. Alvarez. Sem referência bibliográfica.

Lembrar-me de tentar escrever a tese.

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Menos que uma tentativa

Alguma falta, não sei.

Sinto falta das palavras escorrendo entre os dedos - mesmo sabendo que não conseguirei pegá-las.

Domingo, Agosto 31, 2008

Só porque é hoje

Descobri que hoje é o Dia (Internacional!) do Blog.

Descobri, também, que a escolha se deu pela semelhança da data com a palavra blog: 3108. Vá lá que seja.

Descobri, ainda, que hoje é dia de colocar mensagens a seus leitores, indicando blogs interessantes.

E cá está este blog, totalmente desinteressante, abandonado, primeiramente, por mim.

Única postagem de agosto. Mais uma postagem totalmente sem razão.

Leitores, por favor - caso ainda haja alguém que visite esta empoeirada página -, cobrem mais de mim - caso ainda haja alguém que acha que vale a pena.

Será que consigo desempoeirar??

Domingo, Agosto 03, 2008

Bocejo

Humpf. Lá se vão as férias, ou o que quer que essas últimas duas semanas tenham sido. Saldo: quinze dias de gripe, Petrópolis full time, no máximo três ou quatro idas a Itaipava. A casa está tão ou mais bagunçada do que antes. Todo e qualquer planejamento foi por água abaixo. Nem Mauá, nem Tiradentes, nem Ilhabela: cama e sofá.

Momento: preparação psicológica para o celular tocando acintosamente às seis da manhã.

Quarta-feira, Julho 16, 2008

E eis que se anuncia o fim do jantar romântico

Namorados, tremei. Namoradas, principalmente, pois sabemos que sobretudo as mulheres têm em alta conta, no seu imaginário, sonhos e aspirações a instituição do jantar romântico. Sim, o programinha ideal para um casal de apaixonados que, com a desculpa da refeição, encontra-se para falar da vida atual, planejar a vida futura.

Cenário: julho, um frio delicioso na serra e é lugar-comum que o destino mais apropriado é algum restaurante aconchegante em Itaipava, em que o casal escolherá um fondue – nada mais adequado quando o que se quer é prolongar o momento de estarem juntos – e, para acompanhar – a menos que ele ou ela seja abstêmio –, uma garrafa, meia-garrafa, quem sabe, de um bom vinho tinto.

Pronto: ouço agora o berro do politicamente correto. E, pior: agora, não só mais o “politicamente correto”, mas o grito do “absurdo”, da “irresponsabilidade”, do – “crime”! Jantar romântico que é jantar romântico, a menos que um dos namorados não tenha carro, não termina com um táxi. Até porque o táxi de Petrópolis a Itaipava, ida e volta, à noite, fim de semana, custa um pouquinho caro – possivelmente vai custar mais que o tal jantar romântico. É só imaginar: a doce conversa do casal enamorado, embriagado mais de amor que de duas taças de vinho, continua no banco de trás de um carro dirigido por um desconhecido que, não raramente, deixa o rádio ligado em uma estação AM? Ou que teima em conversar com os passageiros? Ou que mantém o mais absoluto silêncio, fazendo com que se cale qualquer tentativa de continuação do assunto enquanto, à meia-luz, o casal parecia estar sozinho no restaurante? Acho que não. O jantar romântico é, necessariamente, continuado no caminho de volta, em que – cena romântica –, o namorado deixa em casa a namorada, não sem alguns beijos de despedida. Beijos de despedida como, na frente do taxista?

Vamos à opção do fondue sem vinho. Bem, em um jantar romântico, não há a possibilidade – a menos, claro, que um dos dois seja abstêmio – do “eu tomo vinho e você, que está dirigindo, refrigerante”. Vinho é, sobretudo, uma bebida social. Há o brinde – sempre ao futuro, ou algo assim. Não raro toma-se mais água do que vinho durante o jantar, mas o vinho é importante. É solene sem deixar de ser intimista, é sedutor, é charmoso. Namorados pedem bons vinhos para impressionar suas namoradas. Na opção de substituir o vinho por suco ou refrigerante... Bem, eu simplesmente não consigo imaginar fondue com refrigerante. Ou suco. Há todo um ritual no jantar romântico: tente trocar o gesto de usar o saca-rolhas pela retirada do anel da lata de alumínio. Não, não combina. E não é pelo teor alcoólico: basta trocar a taça por um copinho de cachaça – igual (ou mesmo maior) equívoco.

Portanto, namorados, e namoradas, as mais prejudicadas, talvez: esqueçam o sonho de jantar, inocentemente, romanticamente, em Itaipava, ou em qualquer outro lugar, à meia-luz, com um bom vinho, com a boa companhia de seus namorados, sem preocupação qualquer. Rito que é, não é simples substituir seus elementos, ainda que simbólicos – como é simbólico o vinho que toma o casal apaixonado. Mas, pelo rigor da lei, mudam-se os costumes – nem que seja a tapa. Será?

Segunda-feira, Junho 09, 2008

Dois minutos de análise ou If I were a character

Tenho uma certa fidelidade às coisas. Mesmo número do celular desde sempre - sequer cogito trocar de operadora só por apego aos dígitos, e olha que isso me faz deixar de considerar alguma economia. Peço sempre a promoção número 4 no McDonald´s. Sempre coca-light (apesar de não notar grande diferença, evito a coca zero). Sempre caipivodka de morango, quando é hora de caipivodka de morango. Pizza ou de lombinho canadense com alho-poró ou margarita (assim eu descobri que sou vidrada em manjericão). Vou sempre aos mesmos lugares. Costumo comprar nas mesmas lojas. Sempre tenho que prestar dupla atenção para não pegar o caminho do Fundão quando vou ao Rio e desço pela Vermelha em direção à Zona Sul. Ouço, claro, sempre os mesmos CD´s. Deixei uma conta de e-mail antiga com algum sofrimento, e ainda me pergunto se posso recuperá-la. De uns tempos pra cá, só tomo sorvete de pistache. Não penso em trocar de banco. Sempre lírios cor-de-rosa no vaso sobre a mesa da sala de jantar.

Não, eu não sou muito chegada a mudanças. E também tenho dificuldade para me desfazer das coisas. Fiquei no mesmo bairro depois de casada. Não quero mudar de cidade e simplesmente não concebo a idéia de mudar de Estado. Sou incapaz de me desfazer de minhas agendas antigas, e isso me remete ao início da década de 90. Guardo centenas de e-mails. Isso sem falar nas centenas de faturas de cartão de crédito espalhadas pelas gavetas.

Sinto muitas saudades. De tudo. De bobagens. Tenho sempre a melancolia do momento perdido. E a certeza de que o momento de agora também não durará muito. Então eu me apego.

Não acho que esteja certa. Mas também não acho que esteja errada. Até gosto da minha previsibilidade. Talvez tente compor um esboço de retrato meu.

Mas mudo, também. De humor, sobretudo. Para mim, não há tristeza pouca. A ínfima bobagem pode me levar à terrível angústia: basta começar a chorar. Quando choro, choro por tudo - tenho inveja de quem consegue chorar discretamente, enxugar os olhos e continuar. Eu, não. Eu me dilacero.

Tento, às vezes, me entender. E percebo que não entendo o porquê de ter escrito tudo isso. Peço desculpas pelas idéias desconexas, e também pelo tom egocêntrico. Alguém dirá que é necessidade de análise. Outra pessoa pensará que há alguma vaidade. Eu nem sei o que dizer. Talvez, apenas que é bom, de vez em quando, olhar-se de fora e tentar enxergar-se como alguém outro, tão estranho a si mesmo. E, quem sabe, transformar-se um pouco em personagem.

Sexta-feira, Maio 30, 2008

O nadador

Era a primeira vez que o nadador do interior estava em frente ao mar. Tão diferente das piscinas, tão vasto e profundo. E infinito. Além, só a costa africana. Fitava o horizonte como se pudesse lá encontrar um destino. Além, muito além, mais além do que o longínquo das histórias que ouvia na infância. Além, mais além. O oceano se oferecia em tons de verdes-azuis, o som das ondas chamando-o, chamando-o. Areia firme, o sal que a pele sentia com o correr do vento. Era tão bom, ele pensava, ou só sentia, e só sentir já era o suficiente. Uma imensa linha – reta? – à frente, uma linha reta inatingível – sempre além, sempre mais além. Sem chegadas. O horizonte, imóvel, o desafiava – mas seus braços eram fortes, e venceriam os infindáveis quilômetros. Braços fortes, ele sabia. Rompeu a superfície plana do mar tão calmo e foi além – para lá encontrar seu destino.

"A linguagem é uma pele: fricciono minha linguagem contra o outro. Como se eu tivesse palavras à guisa de dedos, ou dedos na ponta de minhas palavras." (Roland Barthes)